A história dos doces

Confira um inventário sobre os doces do mundo contado pela jornalista Lucrecia Zappi

Torta prática mil folhas

Torta prática mil folhas: sofisticação na hora da sobremesa
Foto: Ormuzd Alves

"Não existe conversa enxuta com um prato de brigadeiro para matar na colherinha", diz a jornalista Lucrecia Zappi, autora do livro Mil-Folhas (editora Cosac Naify), um passeio histórico e literário pela história dos doces. Vai dizer que você não concorda com ela, ou que, pelo menos um dia, um prato de brigadeiro não esticou a conversa por horas a fio? Pois é, os pratos açucarados têm esse poder. E foi esse o ponto de partida para que Lucrecia fizesse um mergulho nas tradições, significados e histórias dessas delícias. Veja a entrevista com a jornalista

Por que escreveu um livro com a temática doces, como o Mil-folhas?

A ideia surgiu de uma matéria que fiz para a Folhinha (suplemento infantil do jornal Folha de S. Paulo). Estávamos no mês de julho, portanto férias de inverno para a garotada. Tinha que ser algo que tivesse um sabor doce. O livro foi uma retomada do assunto, porém captando com mais profundidade os signos das diversas civilizações e culturas por meio do açúcar.

O livro engloba a história dos doces. Quanto tempo você demorou para concluir a pesquisa e escrever?

Levei em torno de três anos para pesquisar, mas considero que, mesmo com o livro pronto, continuo com a mesma curiosidade aguçada sobre o tema.

Pode me contar alguma curiosidade que ocorreu durante sua pesquisa ou até algo diferente e novo sobre doces?

Quando comecei o livro, estava voltada para os doces tradicionais brasileiros e os das doceiras italianas de São Paulo: meu interesse tinha um contexto autobiográfico (risos). No desdobramento da pesquisa, no entanto, os doces não apenas passaram a remeter a outros doces, como também a outras épocas, como o bolo mil-folhas em si, que teve como musa de inspiração o Baclavá, dos Otomanos, que por sua vez foi baseado no Phyllo, dos gregos. Comecei a buscar estas referências, com as terminologias e ingredientes que testemunhavam matizes das diversas mesas pelo mundo.

Lucrecia Zappi livro

Lucrecia Zappi é jornalista, mestre em Criação Literária. Tem 39 anos, é casada com um americano e mora em Nova York há cinco anos. Tem dois filhos, um de 16 anos e outro de nove. Ambos moram com ela nos Estados Unidos. Cheia de planos para o futuro: o primeiro é terminar seu primeiro romance, em produção...
Foto: Divulgação

O universo dos doces é enorme, como encontrou um foco para o livro?

Quando percebi que estava escrevendo um inventário de todos os doces da terra, resolvi fazer uma triagem: entrariam apenas os relacionados com a cana de açúcar. Isto porque, de certa forma, revelam não só a singularidade brasileira pelo gosto doce, mas também uma história de séculos de colonização que refletiu nas mesas mais abastadas da Europa, considerando que o açúcar desde que foi introduzido no Velho Continente pelos árabes era considerado uma especiaria muito rara.

Qual a importância do doce na cultura dos brasileiros? O que ele mudou em nossa vida?

O doce na cultura brasileira não é uma nota isolada na história, o ídolo distante das mesas brasileiras, dos tempos da casa grande e as casas de engenho. Ao contrário. Tornou-se o gosto pungente do nosso paladar. Gosto de acreditar que o docinho é uma extensão da nossa acolhida calorosa, de rodear o fogão, de encostar na cozinha, até porque não existe conversa enxuta com, por exemplo, um prato de brigadeiro para matar na colherinha!

E para o restante do mundo?

O mundo também ficou mais doce, o que contribuiu para a obesidade e mais doenças, Brasil incluído. Quando se consome doce hoje em dia, especialmente entre os adultos, escapa-se da esfera do imaginário e do prazer para se falar em remorso e frustração. Comer doce tornou-se um dilema. Oscila entre um caminho para a inspiração e uma droga perigosa difícil de dosar.

O que você aprendeu com o livro Mil-folhas?

Que um doce, por mais simples que pareça, é sempre uma história inacabada. Mesmo que eu não consiga explicar sua origem e seu destino, desde que passei pelo Mil-folhas, não resisto. Farejo aproximações, até porque o doce é um caso universalizante.

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