Quando o sangue não é devidamente bombeado dos pés ao coração, as veias entopem e as varizes aparecem
Mude pequenas atitudes na sua rotina e diminua as chances de ser "perseguida" por esse mal
As subidas sempre são a parte mais difícil do percurso. No sistema
circulatório também. O sangue corre uma maratona para sair dos pés e
chegar ao coração. O trabalho é tão duro que músculos, veias e válvulas
unidirecionais o ajudam no percurso. Se um deles perde o fôlego, o
sangue para, obstrui as veias e as varizes aparecem.
Segundo estudos do Centro de Saúde Escola de Botucatu (SP), o problema
atinge 35% da população. Não se trata de uma questão meramente estética.
"Se não tratadas, as varizes podem virar hipertensão venosa crônica e
trombose. Caso infeccionem, resultam em úlceras varicosas", explica
Hilton Waksman, cirurgião cardiovascular do Hospital Albert Einstein, em
São Paulo. A genética e os hábitos de vida também impulsionam a
dilatação dos vasos. Aprenda a desobstruir seu encanamento.
Os entupidores
Gravidez
Na gestação, há mais chances de as varizes aparecerem por dois motivos.
O primeiro é que a maior concentração dos hormônios estrógeno e
progesterona tem efeito vasodilatador. O segundo é o aumento do útero,
que, mais pesado, comprime os vasos pélvicos, dificultando a circulação.
"Para evitar o problema, o ideal é fazer o pré-natal corretamente, não
ganhar peso demais e usar meias elásticas", explica Hilton Waksman. A
boa notícia é que as varizes originadas na gravidez são as únicas que
podem sumir sem intervenção. "Muitas vezes, as veias só dilatam e voltam
ao normal." O ideal é esperar pelo menos dois meses após o parto para
analisar o grau do problema e iniciar o tratamento adequado.
Salto alto
Uma pesquisa da Divisão de Cirurgia Vascular e Endovascular do Hospital
das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP/USP)
comprovou o que a gente já imaginava: salto alto influencia o
aparecimento de varizes. "Ele imobiliza o tornozelo, impedindo a
contração da musculatura da batata da perna e o bombeamento do sangue",
diz o cirurgião. E não importa o tipo de salto, mas sim a altura dele.
Na pesquisa, as mulheres usaram modelos agulha e anabela, ambos de 7 cm.
O acúmulo de líquidos na perna ficou em 56% no agulha e 59% no anabela,
sendo que o normal é até 35%. Por isso, se você tem predisposição,
reserve o salto para ocasiões especiais.
Anticoncepcional + Tabagismo
Essa combinação é perigosíssima para quem tem propensão às varizes. O
estrógeno, um dos hormônios contidos na pílula, aumenta o risco da
formação de coágulos no sangue, que obstruem as veias. O mesmo pode
acontecer também na menopausa, com a reposição hormonal. Já as
substâncias tóxicas contidas no cigarro são vasodilatadoras. Portanto,
cigarro + pílula + fatores hereditários = varizes na certa. Mas nem por
isso você precisa abandonar o anticoncepcional. A dica é optar pelas
versões à base de progesterona sintética, que podem ser recomendadas
pelo seu ginecologista. Já o cigarro, faça o favor de apagar.
Muito tempo parada (sentada ou em pé).
Os tornozelos ficam inchados, doem e no final do dia você sente aquela
sensação de peso nas pernas? É sinal de que vêm varizes por aí! Esses
sintomas são comuns em quem passa muito tempo sentada ou em pé, pois os
músculos são pouco estimulados. Se é o seu caso, a dica é andar por pelo
menos 5 minutos a cada hora e meia. Essa pequena caminhada melhora o
retorno venoso. "Usar meias elásticas de compressão ajudam a prevenir e
diminuem os sinais, mas não curam", define Priscila Nahas, diretora da
Sociedade Brasileira de Flebologia e Linfologia.
Carga pesada
Carregar muito peso e com frequência é sinal verde para o surgimento
das varizes. O mesmo princípio se aplica à musculação. Esse exercício
contrai a musculatura, bloqueando o bombeamento do sangue até o coração.
Logo, aposente a Mulher Maravilha. Nada de aumentar a carga dos
aparelhos só porque quer efeitos mais rápidos. Precisa carregar peso,
como em uma mudança, por exemplo? Chame um homem e deixe que ele faça o
trabalho pesado.
Obesidade e sedentarismo
Essa dupla é aliada dos problemas mais temidos, como colesterol alto,
hipertensão, diabetes... e varizes também. A obesidade sobrecarrega os
membros inferiores e aumenta a compressão abdominal. O resultado disso é
má circulação. Nesses casos, o ideal é emagrecer antes de iniciar um
tratamento. Sedentárias também estão propensas a ganhar algumas veias
sobressaltadas, pois sem movimentação corporal não há estímulo da
musculatura. É preciso fortalecer os músculos da panturrilha a fim de
impulsionar a circulação venosa. Não só pelosedentarismo, mas por
diversas questões de saúde, mexa-se. Valem modalidades aeróbicas leves,
como caminhada, ciclismo e hidroginástica, por pelo menos três vezes por
semana.
As válvulas de escape
Escleroterapia
Uma agulha bem fina libera um líquido que irrita a região afetada e
destrói a veia, deixando uma cicatriz quase imperceptível. As aplicações
podem ser feitas semanalmente em consultório médico e a quantidade de
sessões depende de cada paciente. Simples e rápida, não necessita de
repouso após o procedimento. Logo depois da aplicação, podem surgir
hematomas. Por isso não é recomendado tomar sol por pelo menos uma
semana. Funciona para as telangiectasias e pequenas veias, sendo
ineficiente no caso de varizes. "No caso de microvarizes, como a
aplicação provoca uma inflamação nas paredes das veias, pode acabar não
resolvendo e até deixando manchas", afirma Waksman. No Brasil, as
substâncias mais usadas são a glicose (crioescleroterapia) e o oleato de
etanolamina, que têm menor índice de reação alérgica.
Escleroterapia com espuma
O procedimento é o mesmo da escleroterapia. As substâncias polidocanol e
tetradecil-sulfato de sódio são agitadas e, em contato com o ar, viram
espuma. "O tempo de ação desses princípios ativos aumenta, garantindo
maior eficácia no tratamento e acabando com varizes", diz Eduardo Toledo
de Aguiar, membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia
Vascular.
Microcirurgia
Pequenas incisões feitas com um instrumento semelhante a uma agulha de
crochê retiram a veia afetada. A microcirurgia é realizada em
consultório, com anestesia local, e só exige repouso no próprio dia, em
casa. Funciona em casos de microvarizes e, como a veia é retirada, não
se corre o risco de o problema voltar.
Cirurgia
É indicada para varizes e microvarizes, quando a safena é afetada. O
procedimento parece a microcirurgia, mas é feita em hospital, com
anestesia peridural. A paciente deve ficar internada por pelo menos um
dia, mais dois de repouso em casa. Muitas optam por fazer a operação em
uma sexta-feira para repousar no fim de semana. No pós-operatório, é
preciso usar meia elástica de 15 a 20 dias. Tomar sol está
proibidíssimo.
Laser
Um aparelho emite raios laser que atravessam a pele e aumentam a
temperatura do sangue, eliminando o vaso pelo calor. Num teste com 52
pacientes feito por cientistas da Faculdade de Ciências Médicas da
Universidade de Campinas (Unicamp), em São Paulo, 81% das feridas
apresentaram cura total. "O laser somente é indicado para o tratamento
de vasinhos (telangiectasias), sendo, portanto, uma técnica bastante
utilizada nos casos de vasos superficiais", explica o dermatologista
Jorge Mariz, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia.
Recomendam-se, em média, três sessões, com intervalos de 30 dias entre
elas. A aplicação de cada sessão dura, em geral, 30 minutos.
Desentupidores
Afora as intervenções mais sérias, há outros coadjuvantes no tratamento
e prevenção das varizes, como uma dieta equilibrada. "Os alimentos
funcionais são ricos em flavonoides, substâncias que aumentam a
resistência das paredes dos vasos sanguíneos. Aposte no consumo de
cebola roxa, maçã, brócolis, vinho tinto e mirtilo", aconselha Priscila.
Outro recurso são os medicamentos orais conhecidos como flebotônicos ou
flebotróficos capazes de conter o problema. "Eles têm ação
cientificamente comprovada", explica a especialista. "As meias de alta
compressão servem de coadjuvantes na prevenção; já os cremes que
prometem o desaparecimento das varizes são pura enganação", adverte
Priscila.
Os tipos de entupimento
Há três tipos de dilatações venosas que são consideradas varizes, e para cada um há tratamentos específicos e eficientes
1. Telangiectasias
São os famosos vasinhos que não saltam da pele. O incômodo, de natureza
basicamente estética, tem chance de virar varizes se não for tratado.
2. Microvarizes
Trata-se das veias sobressaltadas que só ficam visíveis com alguns movimentos.
3. Varizes
São as veias saltadas e tortuosas, visíveis sem esforço ou movimento. É
a versão mais perigosa e com mais chance de virar trombose ou flebite.