A menção das três letras causa calafrios, um misto de vergonha, culpa e medo de morrer. Por isso, respondemos aqui às suas principais dúvidas para que você saiba como se proteger
Como o HPV causa câncer?
O vírus se aloja na célula e altera o funcionamento dela, provocando
uma lesão. Apenas quando ele leva à multiplicação celular de forma
descontrolada, a ponto de invadir outros tecidos, é que se dá o câncer.
Isso demora de dez a 15 anos. Se a lesão for tratada logo, evita-se a
malignidade. Quinze dos mais de 120 tipos de vírus são suspeitos de
provocar a doença. Os HPVs 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58 estão ligados a
90% dos casos de câncer de colo do útero. Já os de número 6 e 11
produzem 90% das verrugas genitais, que têm aparência feia, de
couve-flor envelhecida, mas não representam maiores danos. Da população
sexualmente ativa, 75% entram em contato com o vírus. "Menos de uma em
cada 100 mulheres infectadas desenvolve lesões com potencial para se
tornar câncer de colo uterino", diz a bióloga Luisa Lina Villa,
professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, em São Paulo.
Na maioria das vezes, o sistema imunológico elimina o vírus. Baixa
resistência, fumo, múltiplos parceiros e presença de outras DSTs ampliam
os riscos.
Qual é o exame preventivo?
É o papanicolau, ou exame de citologia oncótica. Células do colo
uterino são analisadas ao microscópio. Se o resultado estiver alterado,
faz-se a colposcopia: lentes e reagentes permitem visualizar ulcerações
minúsculas. Em suspeita de HPV, uma biópsia e exames de biologia
molecular descobrem se o vírus é de alto risco. O papanicolau é
recomendado a todas as mulheres após o início da vida sexual. "Diante da
atual realidade brasileira, o mais seguro é repeti-lo anualmente",
afirma a ginecologista Maria dos Anjos Sampaio Chaves, especialista em
patologia do trato genital e colposcopia do SalomãoZoppi Diagnósticos,
em São Paulo. "O câncer de colo do útero castiga mais a população pobre,
que tem difícil acesso aos serviços de saúde", diz Luisa Lina Villa.
A camisinha protege 100%?
Ela não impede o contato com minilesões que o homem pode ter no sacro
escrotal e ao redor do ânus nem contra as apresentadas pela mulher na
vulva ou na região anal. Apesar disso, se for utilizada desde o início
das carícias, e não só na penetração, a camisinha diminui o risco de a
pessoa sadia ser infectada por um parceiro doente. Detalhe: a camisinha
feminina recobre também a área dos lábios vaginais, protegendo de forma
mais ampla que a masculina.
O HPV volta a atacar anos depois?
"Sim. Mas não dá para saber se o vírus ficou latente e foi reativado ou
se houve um novo contágio", explica Maria dos Anjos. É difícil
descobrir qual parceiro infectou o outro e quando. A contaminação, em
sexo genital, anal, oral ou simplesmente em manipulações, pode ter
ocorrido em relações anteriores. Uma vez descoberta, é fundamental
avisar o parceiro; ambos devem ir ao médico.
Banheira de motel, toalhas e calcinhas emprestadas podem transmitir o vírus?
A possibilidade é bem remota. Margaret Stanley, da Universidade de
Cambridge, no Reino Unido, costuma responder a tal pergunta com uma
piadinha: "Você pode pegar em assento de sanitário, mas deve ser muito
desconfortável". Para o vírus infectar as mucosas, precisa haver fricção
e microfissuras do tecido.
Como é o tratamento da infecção?
Não se combate o vírus. O tecido onde ele se aloja é destruído. Assim,
as verrugas e lesões são removidas e a área cauterizada. Feridas
cervicais, atingidas por HPV de baixo risco, podem ser combatidas pelo
sistema imunológico - às vezes, o médico receita vitaminas para melhorar
a resistência. As lesões colonizadas por tipos agressivos são
eliminadas por ácido tricloroacético, no consultório, com anestésico
para evitar ardor, ou cremes vaginais à base de imiquimod. Usa-se também
cauterização elétrica ou a frio. Lesões mais graves são vaporizadas a
laser ou extirpadas cirurgicamente. Mesmo que se contraia o agressivo
HPV 16, é possível remover as células infectadas antes de virar câncer.
Adultas podem ser vacinadas?
Em junho, a Anvisa liberou a aplicação da bivalente em mulheres acima
de 26 anos. Mas existem controvérsias sobre a eficácia. Luisa Villa
defende que, mesmo quando já houve exposição ao vírus, a imunização pode
ser útil: como o corpo não produz anticorpos para barrar o HPV no
futuro, espera-se que a vacina impeça nova infecção.
Quais são as vacinas disponíveis?
Há duas. A bivalente (Cervarix) barra os tipos de HPV mais hostis, o 16
e o 18; a quadrivalente (Gardasil) imuniza contra ambos e ainda contra o
6 e o 11. Ambas são oferecidas em clínicas privadas, por via
intramuscular, em três doses, cada uma a 300 reais, em média. Desde
janeiro, elas foram aprovadas também para prevenir o câncer anal, que é
raro (ocorrem de três a cinco casos por 100 mil pessoas), mas cuja
incidência triplicou em mulheres nos últimos anos. A principal indicação
é para as meninas a partir de 9 anos, que ainda não iniciaram a vida
sexual. Alguns países, como a Austrália, oferecem também aos meninos.
Vacinas podem dispensar o exame preventivo?
Não. O rastreamento anual deve continuar, pois podem surgir lesões
desencadeadas por tipos não atingidos por vacinas. Homens também devem
ser examinados. "Tratar o tema com naturalidade diminui o problema,
ajuda a amar com responsabilidade", diz Maria dos Anjos.