A dor intensa no período menstrual e nas relações sexuais é sintoma típico da endometriose. A doença, que atinge milhões de brasileiras, rouba o humor, a capacidade de trabalho e pode impedir a gravidez
Uma pesquisa indicou que mais da metade das brasileiras não sabem o que é endometriose
Ela
atinge, no mínimo, 15% das brasileiras em idade fértil - ou cerca de 7
milhões. Como muitos casos ainda não foram diagnosticados, os
especialistas calculam que o grupo que sofre com a endometriose por aqui
seja maior, de 10 milhões. A doença causa inúmeros prejuízos, entre
eles a queda da produtividade. Há uma perda, em média, de 10,8 horas
semanais, porque a profissional fica de cama ou sem gás para trabalhar. A
descoberta é de um estudo da Universidade Oxford, na Inglaterra, com
1.418 mulheres de dez países, incluindo o Brasil.
A endometriose surge quando células do endométrio (tecido que reveste o útero) se fixam em outros locais do abdome,
como ovários, trompas, os ligamentos que sustentam o útero, a área
entre a vagina e o reto, a superfície externa do útero, a membrana que
reveste a parede abdominal (peritônio). Dali, continuam a responder aos
estímulos hormonais - assim, o tecido cresce todo mês e sangra. Por não
ter como escoar, o sangue se acumula, causando inflamações. E elas podem
provocar sofrimento incapacitante, que se manifesta como
cólica menstrual, dor pélvica crônica e dor nas relações sexuais.
Às vezes, as células do endométrio "grudam" em cicatrizes de cirurgias
ou sobre o intestino e a bexiga, causando desconforto ou dor ao urinar e
evacuar, além de infecção urinária e diarreia, sobretudo nos dias da
menstruação. Segundo o ginecologista Nicolau DAmico Filho, os focos
podem ser superficiais ou profundos. Mas a intensidade da dor nem sempre
é proporcional à gravidade. Mulheres com quadros profundos podem
relatar pouca dor, e vice-versa. Uma minoria não apresenta sintomas.
Metade das portadoras está sujeita à infertilidade.
"A endometriose pode causar obstrução nas trompas, o que inviabiliza a
gravidez por meios naturais", explica o ginecologista Carlos Alberto
Petta, que participa de pesquisas sobre o tema. A doença também leva a
alterações hormonais, bioquímicas e imunológicas que atrapalham o
funcionamento do aparelho reprodutivo.
Brasileiras não conhecem a doençaApesar
de tantos estragos, a doença permanece desconhecida. Uma pesquisa da
SBE (Associação Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente
Invasiva), divulgada do ano passado, ouviu 5 mil brasileiras acima dos
18 anos: 55% não sabiam o que é endometriose. Pior: ainda vigora entre
as mulheres - e às vezes até entre os médicos - a
falsa ideia de que as cólicas menstruais são normais.
"A consequência é o diagnóstico tardio", lamenta Petta. "Enquanto a
mulher ouve que não tem nada, a doença avança. Com frequência, só é
detectada quando tenta engravidar e não consegue." O tempo entre o
início dos sintomas e o diagnóstico varia de sete a dez anos. Há
prejuízo emocional: "Uma mulher cheia de dores que vai ao médico e não
descobre o que tem fica desacreditada, inclusive pelos familiares, e
corre risco de depressão", avisa DAmico Filho. Para reverter a
situação, 56 representantes de 34 organizações médicas e de pacientes de
vários países (incluindo o Brasil) organizaram o primeiro guia
internacional com diretrizes para diagnóstico e tratamento, publicado na
revista científica Human Reproduction em março, mês da conscientização
sobre endometriose. O documento da World Endometriosis Society (WES)
destaca a importância de orientar quem sofre de cólicas e dores pélvicas
a buscar ajuda médica, mesmo na adolescência.
Como surge a endometriose
A principal causa da endometriose é a chamada menstruação retrógrada: 80% das mulheres têm
refluxo de parte do sangue menstrual,
o que leva as células do endométrio para outros locais, diz DAmico.
"Em quem tem endometriose, o sistema imunológico falha e não destrói as
células que estão fora do seu habitat." Ter parentes em primeiro grau
com a doença aumenta em oito vezes o perigo de desenvolvê-la. "A
exposição excessiva ao estrogênio estimula o crescimento dos focos. Por
isso, menstruar cedo, engravidar tarde e ter menos filhos eleva o
risco", diz a ginecologista Rosa Neme. O stress e a poluição favorecem o
quadro.
O diagnóstico é feito por meio de exame ginecológico com
toque vaginal - que detecta lesões no fundo da vagina, causadoras das
dores na relação sexual - e métodos de imagem, como a ultrassonografia
transvaginal com preparo intestinal e a ressonância magnética da pelve. O
índice de acertos do primeiro ultrapassa 95% e do segundo fica em 70%,
diz Rosa Neme.
Alívio novo Não há
cura para endometriose, mas o tratamento bem orientado produz alívio. Em
casos superficiais, pode-se indicar algum anticoncepcional hormonal
(pílula ou DIU, implante, anel, adesivo). Os focos que afetam o
peritônio e os ovários, em geral, regridem com análogos do GnRH,
remédios injetáveis à base de hormônios que interrompem a menstruação,
colocando a mulher numa falsa menopausa. Mas eles causam ondas de calor e
aumentam o risco de osteoporose. Podem ser adotados, no máximo, por
seis meses. Uma progesterona aprovada em novembro, a dienogeste, obtém o
mesmo efeito sem os inconvenientes. "De uso oral, reduz a lesão,
melhora a dor e não tem tempo-limite de prescrição", informa Rosa.
Porém, custa mais e provoca insônia, enjoo, mal-estar e dor de cabeça
nos primeiros meses. A
endometriose profunda tem indicação cirúrgica:
os focos são retirados por videolaparoscopia e seu leito cauterizado.
Auxiliam na recuperação dieta equilibrada, exercícios físicos,
acupuntura e outros métodos para manejo do stress e controle do peso - o
tecido gorduroso produz estrogênio. Se houver dificuldade para
engravidar, o tratamento depende da idade. "Até 35 anos, primeiro,
cirurgia de remoção dos focos; depois é melhor partir logo para a
fertilização assistida", diz Petta. O principal conselho é não perder
tempo. Quanto antes for feito o diagnóstico, melhor para a saúde
reprodutiva.